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figura que ilustra manifestantes sindicalistas dos estados unidos, importantes para o ressurgimento dos sindicatos nos eua

ON STRIKE: O ressurgimento dos sindicatos nos EUA

Strike, palavra em inglês que pode ser usada para ações como bater, atacar, lutar, chocar, assaltar e… fazer greves. O ressurgimento dos sindicatos nos EUA. Desde que mobilizou 5 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos, em 1946, após a 2ª Guerra, o sindicalismo estadunidense enfrentou severas desregulações.

Até aquele momento, os sindicatos eram uma diretriz estabelecida pelo New Deal (1933), desenvolvido para resgatar o país da recessão promovida pela quebra do mercado. A proteção ao trabalhador estava detalhada pela Warner Act. Logo, as empresas estavam obrigadas a fechar negociações com os sindicatos, a favor dos seus funcionários.

Aquelas greves sacudiram os EUA do pós-guerra. Eram um poderoso recurso que os trabalhadores estadunidenses tinham para pressionar políticos e autoridades, para questões do povo. Contudo, os conservadores aprovaram no Senado a Lei Tallft-Hartley (1947), que está em vigor até os dias de hoje.

A lei proibia as “greves jurisdicionais”, que são paralisações por disputa de territórios e representatividade de certo grupo de trabalhadores. Também proibiu greves autônomas de trabalhadores, greves solidárias e greve sem autorização legal. Instituiu a sindicalização de loja a loja e permitiu que estados criassem as próprias leis, entre outras medidas. Foi um golpe duro para o movimento sindical, que perdeu sua força de pressão social.

Aliado a este momento, o Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio, organizado em 1947 pela ONU, excluiu responsabilidades trabalhistas e ambientais, para países firmarem acordos comerciais entre si. Desde então, as grandes potências, como os EUA, transferiram suas produções industriais para países com leis trabalhistas fracas, sobretudo na Ásia e África.

Declínio 

Depois deste período, o sindicato do setor privado estadunidense foi paulatinamente desregulado. Automóveis e eletrônicos eram importados do Japão e da Alemanha, roupas e calçados passaram a ser produzidos em países com mão-de-obra barata, como Taiwan.

O ambiente intelectual nas décadas de 70 a 90 favoreceu a “livre concorrência” e setores como as companhias aéreas, ferrovias e telefônicas foram completamente desregulados.

Um salto no tempo: O boom sindical

O ressurgimento dos sindicatos nos EUA começa com um café forte .

Contudo em agosto de 2021, trabalhadores de lojas da Starbucks em Buffalo, no estado de Nova Iorque, se uniram e entraram com petições para criar um sindicato, o Starbucks Workers United (SBWU). Nos EUA é possível criar sindicatos a partir de apenas uma loja, ou um grupo de lojas.

O movimento se alastrou, pois a gestão precarizada era aplicada em centenas de franquias, e seus funcionários viviam as mesmas dificuldades. Hoje, o SBWU reúne 117 sindicatos em todo o país. Ele estabeleceu um acordo onde funcionários sindicalizados recebem até 10% de reajuste anual, gorjeta de cartão de crédito, entre outras conquistas.

Ainda em 2021, trabalhadores de um armazém da Amazon, o JFK8, protestaram contra os efeitos da COVID-19 e seus efeitos nos trabalhadores. Isso levou à demissão dos protestantes, contudo fortaleceu o movimento. Em 2022 nascia o Amazon Labor Union, ou Sindicato dos Trabalhadores da Amazon.

No ano seguinte, 2022, o setor de serviços, o mais afetado pelo modelo sindical dos EUA, se mobilizou em busca de representação sindical. Estudantes de pós-graduação, motoristas de Uber e Lyft, até mesmo cavaleiros, rainhas e escudeiros do Medieval Times, um teatro-jantar na Califórnia, criaram seu sindicato.

O impacto econômico das greves

Em setembro de 2023, a União dos Trabalhadores Automotivos (United Auto Workers – UAW) lançou, simultaneamente, uma greve nacional inédita contra as três maiores montadoras do país: General Motors, Ford e Stellantis, as chamadas “Big Three”. Segundo o Economic Policy Institute, a greve durou seis semanas e envolveu 56 mil trabalhadores, resultando em cerca de 925.000 dias ociosos (total de trabalhadores x dias parados). Os trabalhadores obtiveram um reajuste salarial de até 33% e outras conquistas significativas, como a eliminação do sistema de dois níveis salariais. Além disso, a pressão das greves levou montadoras não sindicalizadas, como Toyota e Tesla, a aumentar os salários de seus funcionários para se manterem competitivas.

Essas greves de alto impacto geraram um total de aproximadamente 17 milhões de dias ociosos em 2023, um número expressivo, equivalente a 46.575 pessoas parando de trabalhar por um ano inteiro. Esse cenário reflete uma onda de paralisações que trouxe benefícios não apenas para os trabalhadores diretamente envolvidos, mas também para setores mais amplos da economia. O impacto econômico das greves não foi apenas a perda de produtividade – com dias ociosos aumentando as dificuldades operacionais das empresas –, mas também uma redistribuição dos lucros empresariais, com os trabalhadores conquistando melhores condições salariais após décadas de estagnação

Greve dos Atores e Roteiristas

Com 118 dias de duração, a greve dos atores e roteiristas foi uma das paralisações com maior impacto midiático. Iniciada pelos roteiristas, que pleiteavam os bônus pelo sucesso de séries para streaming e a regulamentação do uso de inteligência artificial, a greve ganhou visibilidade quando os atores também se uniram ao movimento. Nomes de Hollywood como Jane Fonda e Adam Sandlerm deram visibilidade à causa,  não só pelos salários, mas também pelo futuro do trabalho no entretenimento. 

Em 2023, 451 greves foram registradas nos EUA, segundo o Labor Action Tracker de Cornell-ILR. Esse aumento nas paralisações evidencia um ressurgimento do poder sindical, especialmente em um momento de apoio público crescente, com pesquisas mostrando que 70% dos americanos apoiam os sindicatos, fortalecendo a importância da filiação sindical para a segurança econômica. 

Mickey Mouse e Pato Donald também querem um sindicato

Neste ano, 2024, se ampliaram os movimentos de trabalhadores nos Estados Unidos em busca de representação sindical. Os jogadores do time de basquete universitário Dartmouth foram liberados pela National Labor Relations Board (NLRB) a iniciarem as negociações para fundarem seu próprio sindicato. 

Em maio, 1700 trabalhadores do elenco do Disneyland Resort que interpretam personagens  icônicos como Mickey Mouse, Cinderela, Branca de Neve e Capitão Gancho, votaram pela sindicalização na Actors’ Equity Association.

Recentemente, em setembro, 33 mil trabalhadores da empresa de aviação Boeing, uma das maiores gigantes da indústria dos Estados Unidos e sua maior exportadora de aeronaves. 

Apoio Público: Estadunidenses querem sindicatos fortalecidos

Segundo o renomado Instituto de Pesquisa Social Gallup, dois terços dos americanos aprovam os sindicatos. As recentes disputas trabalhistas, dos trabalhadores das empresas automobilísticas e dos atores e roteiristas, tiveram o apoio de quase 70% da população.

Ainda de acordo com o Instituto Gallup, a pesquisa avaliou outros indicadores. 61% dos entrevistados acreditam que os sindicatos favorecem a economia dos EUA e 57% acreditam que os sindicatos ajudam as empresas onde os trabalhadores são sindicalizados.

A pesquisa conclui que os sindicatos estão desfrutando de alta aprovação devido a forte crença nos benefícios que oferecem aos trabalhadores, frente ao longo período de estagnação salarial. Este aumento se iniciou durante a pandemia, por causa do foco que os sindicatos deram às necessidades dos trabalhadores. Esse momento foi propício para o início das greves, encabeçadas principalmente pelos funcionários dos Starbucks, em 2021, quando se iniciaram as renovações de contrato em muitos setores e os trabalhadores estavam acolhidos pelos sindicatos.

Quem diria, os trabalhadores protegem a economia

Durante as quatro últimas décadas, após o “Consenso de Washington”, que adotou um conjunto de políticas econômicas que envolvia taxa de juros determinadas pelo mercado, privatizações, desregulamentação e liberalização do comércio e do investimento estrangeiro direto, ambos partidos dos EUA priorizaram o livre comércio, visando a competitividade dos produtos estadunidenses globalmente.

Isso realmente reduziu o preço dos bens, aumentou os lucros, levou a uma baixa de sindicalização e levou a mão de obra manufaturada para o exterior, para países com legislações trabalhistas amplamente flexibilizadas.

Segundo o pesquisador Upamanyu Lahiri, de Relações Exteriores Council On Foreign Relations, isso retirou os empregos dos Estados Unidos, migrando a força de trabalho principalmente para China, o que gerou um ceticismo comercial na população e também nos partidos, que viram na segurança do emprego uma forma de proteger a economia interna.

Conclusão

O ressurgimento dos sindicatos nos EUA está mais ativo do que nunca, e, além de vitórias recentes, tem conquistado forte engajamento social e político. A palavra “Strike”, que em inglês também pode significar “bater” ou “atacar”, reflete bem a postura combativa adotada pelos trabalhadores.

As conquistas sindicais recentes, como aumentos salariais no setor automotivo e avanço nas regulamentações no setores de entretenimento e saúde, demonstram  crescimento. Esse fortalecimento conta com o apoio popular crescente, com mais de 70% dos americanos favoráveis aos sindicatos. ​(Council on Foreign Relations Pew Research Center).

Além disso, tanto os Democratas quanto Republicanos têm mostrado mais sensibilidade às demandas trabalhistas. Após a pandemia, ficou exposta a vulnerabilidade dos trabalhadores frente a condições precárias. Com esse cenário, o sindicalismo nos EUA caminha para solidificar sua posição. Uma força que equilibra as relações trabalhistas e promove a justiça econômica. Ao mesmo tempo, se torna uma ferramenta crucial de proteção econômica.

Essa combinação de engajamento social e político sinaliza os sindicatos como uma estrutura sólida no contexto econômico e social do país.

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