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O que mudou desde 2013? Como as transformações sociais afetam os sindicatos

o que você encontra neste conteúdo

🧭 A virada depois de 2013

As manifestações de junho de 2013 marcaram uma virada no Brasil. No entanto, essa virada não foi apenas política.

Foi social, econômica, cultural, institucional e subjetiva.

Desde então, a vida ficou mais instável, mais cara, mais fragmentada e mais atravessada por disputas morais, religiosas, territoriais e políticas.

Com isso, o trabalho mudou. O consumo mudou. A confiança nas instituições mudou. A forma de se informar mudou. Além disso, a maneira como as pessoas constroem pertencimento também mudou.

Mesmo assim, o sindicalismo, em muitos casos, não acompanhou esse deslocamento.

Por isso, essa é uma das questões centrais para quem pensa comunicação sindical hoje. O problema não está apenas em fazer posts melhores, publicar mais vídeos ou usar uma linguagem menos burocrática.

Na prática, o problema é mais profundo: muitos sindicatos ainda falam com uma imagem antiga da classe trabalhadora.

💸 A vida ficou mais cara e insegura

A primeira mudança foi material.

A vida cotidiana passou a ser organizada por uma sensação permanente de aperto. Em 2024, o IPCA fechou em 4,83%. No entanto, os itens que mais pesaram na experiência concreta da população foram justamente aqueles sentidos no dia a dia.

A gasolina subiu 9,71%. Além disso, os planos de saúde aumentaram 7,87%. Já a refeição fora do domicílio teve alta de 5,70% [1].

Portanto, o problema não é apenas a inflação média. É o modo como transporte, alimentação, saúde e serviços comprimem a renda e produzem insegurança cotidiana.

Na prática, o trabalhador não vive a inflação como índice. Ele vive no caixa do mercado, no posto de gasolina, no boleto do plano de saúde, no preço do almoço, no aluguel e no cartão.

Quando o sindicato fala de salário, reajuste ou negociação coletiva sem traduzir isso para a vida concreta, perde força de reconhecimento.

Por isso, a base precisa entender que salário não é apenas número no contracheque. Salário é comida, transporte, remédio, gás, descanso, cuidado com os filhos e alguma possibilidade de futuro.

🧱 O trabalho ficou mais disperso

Ao mesmo tempo, o trabalho se tornou mais fragmentado.

Em 2024, a taxa anual de informalidade foi de 39,0%. A população ocupada chegou ao maior nível da série histórica, mas com forte presença de vínculos frágeis, trabalho por conta própria, ocupações sem proteção e trajetórias profissionais descontínuas [2].

Isso muda tudo para a comunicação sindical.

Afinal, uma parte relevante da classe trabalhadora já não vive a experiência clássica do emprego estável, do local fixo de trabalho e da identidade coletiva construída no chão da empresa.

Hoje, há trabalhadores circulando entre aplicativos, bicos, contratos curtos, terceirização, jornadas instáveis e ocupações sem proteção. Além disso, há trabalhadores formais que vivem sob metas, medo, adoecimento e insegurança permanente.

Por isso, falar apenas com a categoria imaginada do passado já não basta.

O trabalhador de hoje é também consumidor pressionado, morador de periferia, usuário de aplicativo, pessoa endividada, religioso ou sem religião, pai, mãe, jovem sem expectativa, cuidador da família, eleitor desconfiado e cidadão cansado.

Nesse sentido, a pergunta sindical precisa mudar.

Não basta perguntar: “qual é a nossa pauta?”

Antes disso, é preciso perguntar: “como essa pauta aparece na vida real da base?”

Dessa forma, esse é o ponto de partida de uma comunicação sindical conectada aos trabalhadores de hoje.

⛪ A base mudou seus vínculos de pertencimento

A sociedade brasileira também mudou em sua composição cultural e religiosa.

O Censo 2022 mostrou que, entre 2010 e 2022, os católicos passaram de 65,1% para 56,7% da população de 10 anos ou mais. No mesmo período, os evangélicos cresceram de 21,6% para 26,9%, enquanto as pessoas sem religião passaram de 7,9% para 9,3% [3].

No entanto, esse dado não é apenas religioso.

Ele revela uma mudança nos circuitos de pertencimento, autoridade, confiança, comunidade e linguagem moral da população brasileira.

Em muitos territórios, a igreja, o grupo de bairro, a liderança local, o influenciador e o pastor ocupam espaços de escuta e orientação que o sindicato deixou de ocupar.

Com isso, a disputa não acontece apenas no campo institucional. Ela acontece na vida cotidiana, nos laços de confiança, nas formas de acolhimento e na capacidade de dar sentido ao sofrimento.

Nesse ponto, a comunicação afetiva sindical entra exatamente. Afeto, aqui, não é sentimentalismo. É mediação política.

Ou seja, é a capacidade de partir da experiência concreta do trabalhador para produzir reconhecimento, confiança, pertencimento e vínculo coletivo.

🏛️ A política mudou de escala

A política também mudou de escala e de forma.

Em 2022, o PL passou de 76 para 99 deputados federais e se tornou a maior bancada da Câmara. Já a federação PT-PCdoB-PV elegeu 80 deputados [4].

Assim, a polarização deixou de ser apenas ambiente de rede social ou disputa presidencial. Tornou-se correlação de forças no Parlamento.

Mas a transformação política não se resume à extrema direita.

Além disso, o chamado centro parlamentar também ganhou poder. A Emenda Constitucional nº 86/2015 tornou obrigatória a execução das emendas individuais. Depois, a Emenda Constitucional nº 100/2019 tornou obrigatória a execução das emendas de bancada estadual [5].

Na prática, isso fortaleceu o Legislativo na disputa pelo orçamento e mudou o padrão de relação entre Executivo, Congresso e territórios.

Com isso, o Centrão se fortaleceu não apenas como bloco ideológico, mas como máquina de intermediação política, orçamentária e local.

Parte do sindicalismo ficou comprimida entre essas duas forças.

De um lado, uma direita capaz de falar com medo, identidade e pertencimento. De outro, um centro parlamentar capaz de operar recursos, emendas, cargos, alianças locais e presença territorial.

No meio disso, muitos sindicatos seguiram falando com uma base mais estável, mais concentrada, mais presencial, mais homogênea e mais disponível para a linguagem tradicional da organização coletiva.

Portanto, o erro não foi apenas de comunicação. Foi de interpretação do Brasil.

📲 A comunicação virou disputa de sentido

A polarização também se tornou uma experiência social.

Em 2024, o Reuters Institute registrou que 83% dos brasileiros entrevistados diziam ver o país mais dividido do que unido. Além disso, o mesmo relatório apontou que 47% evitavam notícias frequentemente ou às vezes, enquanto a confiança geral nas notícias estava em 43% [6].

Isso mostra que o debate público passou a ser marcado por desconfiança, cansaço, recusa, bolhas de pertencimento e disputa permanente de narrativa.

É nesse ponto que entram os novos meios de comunicação.

Redes sociais, aplicativos de mensagem, vídeos curtos e grupos fechados não explicam sozinhos a transformação brasileira. No entanto, eles são a infraestrutura que deu velocidade, escala e linguagem a mudanças que já estavam em curso.

A insegurança econômica, a fragmentação do trabalho, a crise de confiança, o avanço religioso, o medo da violência, o ressentimento social e a disputa moral encontraram nesses canais um terreno fértil.

Nesse ambiente, a extrema direita compreendeu a mudança antes de boa parte do campo sindical.

Ela não cresceu apenas porque dominou ferramentas digitais. Cresceu porque soube traduzir angústias reais em linguagem simples: família, fé, ordem, ameaça, corrupção, mérito, medo e inimigos reconhecíveis.

Por outro lado, o Centrão fortaleceu-se por outro caminho. Menos pela emoção pública e mais pela capacidade de organizar recursos, emendas, cargos, alianças locais e presença territorial.

Enquanto a extrema direita disputou subjetividades, o Centrão disputou a máquina concreta da política.

Portanto, o sindicalismo precisa entender as duas coisas.

A comunicação sindical não disputa apenas informação. Ela disputa interpretação da vida.

🌱 O que isso exige do sindicalismo

O trabalhador de hoje não é apenas trabalhador.

Ele vive o trabalho atravessado por consumo, fé, família, território, dívida, violência, redes sociais, medo, esperança e desconfiança institucional.

Por isso, quando o sindicato fala apenas em “direitos”, mas não traduz isso em mercado, aluguel, gás, remédio, transporte, escala, adoecimento e futuro dos filhos, ele perde capacidade de reconhecimento.

Da mesma forma, quando fala apenas em “neoliberalismo”, mas não mostra como isso aparece na rotina, pode estar correto na análise estrutural e distante da experiência vivida pela base.

A sociedade brasileira pós-2013 ficou mais cara, mais instável, mais religiosa em novos termos, mais polarizada, mais desconfiada e mais mediada por redes.

Portanto, o sindicalismo não pode responder a esse cenário apenas com nota oficial, boletim, assembleia e denúncia genérica.

Precisa atualizar sua leitura do Brasil.

Não basta dizer que a classe trabalhadora mudou. É preciso compreender como ela mudou: nos vínculos de trabalho, no consumo, na fé, na família, no território, na confiança, na política, na informação, no medo e na esperança.

Também não basta comunicar melhor. É preciso voltar a interpretar o Brasil real.

Antes de tentar ajustar a comunicação, vale entender onde está o problema. O Diagnóstico Rápido é gratuito e entrega essa leitura em até 48 horas.

Por fim, o sindicato só voltará a mobilizar se conseguir explicar a vida que a base vive hoje — não a vida que a estrutura sindical aprendeu a representar no passado.

Fontes

  1. IBGE, Agência de Notícias. IPCA em dezembro vai a 0,52% e acumula 4,83% em 2024.
  2. IBGE, Agência de Notícias. PNAD Contínua: em 2024, taxa anual de desocupação foi de 6,6%, enquanto taxa de subutilização foi de 16,2%.
  3. IBGE, Agência de Notícias. Censo 2022: católicos seguem em queda; evangélicos e sem religião crescem no país.
  4. Câmara dos Deputados. PL desponta como maior bancada da Câmara, seguido pela federação liderada pelo PT.
  5. Ipea. Orçamento impositivo das emendas coletivas de bancada.
  6. Reuters Institute. Digital News Report 2024: Brazil.

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